Cada vez mais presente no acompanhamento oncológico, a prática regular de atividade física vem sendo apontada por especialistas como uma importante aliada no tratamento e recuperação de pacientes com câncer. Segundo o oncologista clínico Michel Alves, manter o corpo em movimento durante e após o tratamento ajuda na redução da fadiga, melhora o humor, fortalece a saúde emocional e pode até contribuir para diminuir o risco de recidiva da doença. “Atividade física não é opcional. Ela faz parte do tratamento oncológico”, destaca o médico.
Nesta entrevista, ele destaca mais benefícios.
1. Como a atividade física ajuda o paciente com câncer?
Em três frentes diferentes. Na física, o exercício reduz a fadiga, o efeito colateral mais comum e debilitante da quimioterapia, com eficácia comprovada. Na funcional, preserva força muscular, mobilidade e autonomia para o dia a dia. Na biológica, há evidências de que a prática regular influencia positivamente o sistema imunológico e a inflamação, podendo até reduzir o risco de recidiva em alguns tumores, como os de mama e cólon. Um estudo importante publicado em 2025 mostrou que pacientes operados de câncer de cólon que fizeram exercício estruturado pós-tratamento tiveram menor chance de a doença voltar. Ou seja: não é luxo, é cuidado, remédio, tratamento..
2. Existe um exercício ideal para todos?
Cada caso é único, mas existem recomendações gerais. As diretrizes internacionais recomendam 150 minutos por semana de atividade aeróbica moderada (caminhada, bicicleta leve, natação) combinada com 2 a 3 sessões semanais de exercícios de força (musculação leve, elásticos). Isso funciona bem para a maioria das pessoas. Mas o que realmente faz diferença é adaptar à realidade de cada paciente. Uma mulher com câncer de mama em hormonioterapia precisa de reforço muscular e equilíbrio para evitar perda óssea e risco de queda. Já um paciente com câncer de pulmão e falta de ar se beneficia mais de treinos curtos e intervalados. A individualização acompanhada por profissionais de educação física capacitados é o que separa uma boa orientação de uma genérica.
3. Quais cuidados antes de começar?
Três passos obrigatórios. Primeiro: avaliação médica. Cada tratamento tem particularidades, quimioterápicos podem afetar o coração, metástases ósseas exigem cuidado com impacto, cirurgias recentes impõem restrições. Segundo: respeitar o momento certo. Há dias melhores e piores dentro do tratamento. O paciente precisa aprender a distinguir cansaço normal de sinais de alerta (febre, tontura, dor óssea súbita). Terceiro: supervisão profissional. O ideal é que um profissional de educação física com experiência em oncologia ajuste a intensidade ao longo do tratamento. Saber quando intensificar, quando moderar e quando parar é tão importante quanto o exercício em si.
Dr. Michel Alves é especialista em Oncologia Clínica pela USP. Pós graduação em Predisposição hereditária ao câncer (H. Albert Einstein). Coordenador da Oncologia da Rede Primavera. Oncologista da Vitta – Centro de Oncologia.
https://www.instagram.com/micheloncologista
Por: Rafaella Vieira