Estudo aponta que canetas emagrecedoras podem alterar olfato e paladar

Pesquisa com quase 1 milhão de pacientes identificou aumento do risco de alterações sensoriais em usuários de medicamentos da classe GLP-1, mas os casos continuam sendo raros.

Os medicamentos conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras” podem estar associados a um efeito colateral pouco conhecido: alterações no olfato e no paladar. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery, que analisou dados de quase um milhão de adultos com diabetes tipo 2 nos Estados Unidos.

Os pesquisadores utilizaram informações do banco de dados TriNetX, que reúne prontuários eletrônicos de milhões de pacientes atendidos em dezenas de instituições de saúde. Foram acompanhados 876.948 adultos sem histórico prévio de alterações no olfato ou no paladar. Metade dos participantes utilizava medicamentos agonistas do GLP-1, enquanto a outra metade fazia tratamento com outras medicações para diabetes.

Após até dois anos de acompanhamento, os usuários dos medicamentos da classe GLP-1 apresentaram um risco 48% maior de desenvolver alterações relacionadas ao olfato ou ao paladar em comparação ao grupo controle. Quando analisados separadamente, o risco foi 81% maior para alterações no olfato e 52% maior para alterações no paladar.

Apesar dos números chamarem atenção, os próprios pesquisadores destacam um ponto importante: esses efeitos foram incomuns. Menos de 0,5% dos pacientes desenvolveram esse tipo de alteração durante o período analisado. Em outras palavras, embora exista um aumento relativo do risco, a chance absoluta de o problema ocorrer continua baixa.

Por que isso pode acontecer?

Ainda não existe uma explicação definitiva. Os cientistas acreditam que os medicamentos possam atuar tanto em receptores presentes nas papilas gustativas quanto em regiões do cérebro responsáveis pelo processamento do sabor e do cheiro.

Pesquisas anteriores já haviam mostrado que o hormônio GLP-1 participa da percepção do sabor e pode influenciar as preferências alimentares. Alguns estudos em animais, por exemplo, observaram redução da preferência por alimentos muito doces após o uso desses medicamentos.

Mesmo assim, os autores reforçam que são necessários novos estudos para confirmar a relação de causa e efeito e compreender melhor os mecanismos envolvidos.

O estudo muda a forma de usar esses medicamentos?

Por enquanto, não.

Especialistas destacam que os benefícios dos agonistas do GLP-1 continuam bem estabelecidos para pessoas com diabetes tipo 2 e para pacientes com obesidade que possuem indicação médica. Esses medicamentos ajudam no controle da glicemia, promovem maior saciedade e favorecem a perda de peso, reduzindo também o risco de diversas complicações metabólicas.

O novo estudo serve principalmente como um alerta para que médicos e pacientes estejam atentos a sintomas menos conhecidos durante o tratamento.

Quando procurar orientação médica?

Caso a pessoa em uso de uma caneta emagrecedora perceba mudanças persistentes no sabor dos alimentos, dificuldade para sentir cheiros ou outras alterações sensoriais, a recomendação é informar o médico responsável pelo tratamento.

É importante lembrar que o medicamento não deve ser interrompido por conta própria. Somente o profissional de saúde poderá avaliar se os sintomas estão relacionados ao tratamento ou se possuem outra causa.

O acompanhamento médico continua sendo a forma mais segura de obter os benefícios desses medicamentos, reduzindo riscos e monitorando possíveis efeitos adversos.

Por Rafaella Vieira