Estudo aponta que alimentos ultraprocessados podem favorecer doenças inflamatórias no intestino

Revisão de pesquisas indica que o consumo frequente de ultraprocessados pode alterar a microbiota intestinal, aumentar processos inflamatórios e contribuir para o desenvolvimento de doenças como a Doença de Crohn.

Os alimentos ultraprocessados fazem parte da rotina de milhões de brasileiros. Refrigerantes, biscoitos recheados, embutidos, macarrão instantâneo, sorvetes e diversos produtos industrializados oferecem praticidade, mas seu consumo frequente continua despertando preocupação entre pesquisadores.

Agora, uma revisão científica realizada por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Unesp, em parceria com especialistas da Unicamp e da Aalborg University, na Dinamarca, reforça as evidências de que esses alimentos podem prejudicar a saúde intestinal. O estudo foi publicado na revista científica Nutrients.

Os pesquisadores analisaram estudos publicados nas bases SciELO, PubMed e Cochrane. Após critérios rigorosos de qualidade e relevância, foram selecionados dez artigos científicos para avaliar a relação entre alimentos ultraprocessados, microbiota intestinal e doenças inflamatórias intestinais (DIIs).

O que é a microbiota intestinal?

A microbiota intestinal é formada por trilhões de microrganismos — principalmente bactérias — que vivem naturalmente no intestino.

Esses microrganismos desempenham funções essenciais para o organismo, como:

  • auxiliar na digestão;
  • produzir vitaminas;
  • fortalecer o sistema imunológico;
  • proteger contra microrganismos prejudiciais;
  • ajudar no controle da inflamação.

Quando esse equilíbrio é rompido, ocorre um fenômeno chamado disbiose intestinal.

Como os ultraprocessados afetam o intestino?

Segundo a revisão, dietas ricas em alimentos ultraprocessados estão associadas à redução da diversidade das bactérias benéficas e ao aumento de microrganismos potencialmente nocivos.

Esse desequilíbrio favorece um ambiente inflamatório no intestino e pode comprometer a barreira intestinal, facilitando processos inflamatórios persistentes.

Embora diversos fatores influenciem a saúde intestinal, os autores destacam que o padrão alimentar exerce papel importante nesse processo.

Relação com doenças inflamatórias intestinais

Entre as principais doenças inflamatórias intestinais estão:

  • Doença de Crohn;
  • Retocolite ulcerativa.

Essas condições provocam inflamação crônica do trato gastrointestinal e podem causar sintomas como:

  • dor abdominal;
  • diarreia persistente;
  • perda de peso;
  • fadiga;
  • sangramento intestinal.

De acordo com os pesquisadores, a associação entre alto consumo de ultraprocessados e maior risco dessas doenças aparece de forma consistente nos estudos analisados, especialmente em relação à Doença de Crohn. Ainda assim, a revisão não demonstra que os ultraprocessados sejam a única causa dessas enfermidades, mas reforça que eles podem contribuir para seu desenvolvimento em conjunto com fatores genéticos, ambientais e imunológicos.

O que são alimentos ultraprocessados?

São produtos fabricados com diversos ingredientes industriais, incluindo aditivos como corantes, aromatizantes, emulsificantes e conservantes.

Alguns exemplos incluem:

  • refrigerantes;
  • salgadinhos;
  • biscoitos recheados;
  • embutidos;
  • nuggets;
  • macarrão instantâneo;
  • cereais açucarados;
  • sobremesas industrializadas.

Além de geralmente apresentarem altos teores de açúcar, gordura e sódio, esses produtos costumam ter baixo teor de fibras, importantes para manter uma microbiota saudável.

O que isso significa para a população?

O estudo reforça uma orientação já presente em diversos guias de alimentação: priorizar alimentos in natura ou minimamente processados e reduzir o consumo de ultraprocessados.

Isso não significa eliminar completamente esses produtos da alimentação, mas fazer deles uma exceção, e não a base da dieta.

Uma alimentação rica em frutas, verduras, legumes, grãos integrais, feijões e alimentos preparados de forma caseira continua sendo uma das estratégias mais importantes para preservar a saúde intestinal e reduzir o risco de diversas doenças ao longo da vida.

Fonte: Jornal da Unesp; revista Nutrients.

Por Rafaella Vieira